segunda-feira, 7 de março de 2011

O paradoxo do nosso tempo

Nós bebemos demais, fumamos demais, gastamos sem critérios, dirigimos rápido demais, ficamos acordados até muito mais tarde, acordamos muito cansados, lemos muito pouco, assistimos TV demais e oramos raramente.
Multiplicamos nossos bens, mas reduzimos nossos valores.Nós falamos demais, amamos raramente, odiamos frequentemente.
Aprendemos a sobreviver, mas não a viver; adicionamos anos à nossa vida e não vida aos nossos anos. Fomos e voltamos à Lua, mas temos dificuldade em cruzar a rua e encontrar um novo vizinho.
Conquistamos o espaço, mas não o nosso próprio.Fizemos muitas coisas maiores, mas pouquíssimas melhores.Limpamos o ar, mas poluímos a alma; dominamos o átomo, mas não nosso preconceito; escrevemos mais, mas aprendemos menos; planejamos mais, mas realizamos menos.Aprendemos a nos apressar e não, a esperar.
Construímos mais computadores para armazenar mais informação, produzir mais cópias do que nunca, mas nos comunicamos menos. Estamos na era do 'fast-food' e da digestão lenta; do homem grande de carácter pequeno; lucros acentuados e relações vazias.
Essa é a era de dois empregos, vários divórcios, casas chiques e lares despedaçados. Essa é a era das viagens rápidas, fraldas e moral descartáveis, das 'rapidinhas', dos cérebros ocos e das pílulas 'mágicas'.Um momento de muita coisa na vitrina e muito pouco na despensa. Uma era que leva essa carta a você, e uma era que te permite dividir essa reflexão ou simplesmente clicar 'delete'.
Lembre-se de passar tempo com as pessoas que ama, pois elas não estarão por aqui para sempre. Lembre-se dar um abraço carinhoso num amigo, pois não lhe custa um centavo sequer. Lembre-se de dizer 'eu te amo' à sua companheira (o) e às pessoas que ama, mas, em primeiro lugar, ame... Ame muito.
Um beijo e um abraço curam a dor, quando vêm de lá de dentro. O segredo da vida não é ter tudo que você quer, mas amar tudo que você tem!
Por isso, valorize o que você tem e as pessoas que estão ao seu lado.
Ps: A autoria deste texto é atribuída ao excelente comediante norte-americano, George Carlin. Entretanto, o verdadeiro autor de "o paradoxo de nosso tempo" é Dr. Moorehead, autor e pastor de uma igreja nos EUA(segundo o site Truth or fiction).

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Humano,demasiado humano

Este texto de Friedrich Nietzsche, publicado em 1878 é composto de 638 aforismos que abordam questões relacionadas a metafísica, moral, religião,arte,literatura, amor, política e relações sociais. O livro é dividido em 9 capítulos, que procuraremos destacar a priori as partes que subjetivamente mereceram para o autor do blog registros.

07- A filosofia se divorciou da ciência ao indagar com qual conhecimento da vida e do mundo o homem vive mais feliz.

19- A invenção das leis dos números se deu com base no erro, predominantemente já nos primórdios, segundo o qual existem coisas iguais(mas realmente não há nada de igual),ou pelo menos existes coisas(mas não existe nenhuma "coisa"). A hipótese da pluralidade pressupoe sempre que existe algo que ocorre várias vezes: mas precisamente aí já vigora o erro, e aí já simulamos seres, unidades que não existem.

586 - A vida consiste em raros mnomentos da mais alta significação e de incontáveis intervalos, em que, quando muito, as sombras de tais momentos nos rondam.

628 - Nada humano é digno de grande seriedade...

terça-feira, 18 de maio de 2010

A Burocracia como parâmetro de qualidade na administração de bibliotecas universitárias

INTRODUÇÃO

Este ensaio tem como objetivo discutir sobre a viabilidade da implantação do modelo burocrático Weberiano na administração das bibliotecas universitárias como parâmetro de qualidade na realização dos processos operacionais. Para que o paradigma atual de gestão da Biblioteca seja alterado se faz necessário que o Bibliotecário perceba a unidade de informação como uma organização.

A Biblioteca universitária ainda não é percebida pela grande maioria dos bibliotecários como uma organização, e como tal precisa ser gerida a partir de princípios de gestão adotados em outras organizações. O gestor ainda não se deu conta de que antes de satisfazer o usuário existem medidas a serem tomadas no nível administrativo, como o modelo de gestão a ser adotado; e principalmente de que a Biblioteca não se resume apenas, como as vezes acontece, aos conhecimentos e as técnicas de tratamento do acervo adquiridos na graduação em Biblioteconomia. É preciso que o bibliotecário entenda também de processos de gestão administrativos, para que a biblioteca atinja os resultados que se pretende atingir.

Partindo desta premissa, este ensaio dará pistas de como o modelo burocrático Weberiano poderá facilitar a gestão administrativa de uma biblioteca, principalmente no que tange a processos de qualidade na mesma.

Com efeito, é preciso entender, mesmo que o senso comum não conheça etimologicamente a palavra, que a Burocracia é importante e necessária para as organizações. Sem ela os funcionários teriam interpretações diferenciadas dos processos administrativos, ocasionando ineficiência em todos os setores.

O que vamos procurar demonstrar neste ensaio é de que algumas impressões podem estar diretamente relacionadas com equívocos nas administrações das Bibliotecas universitárias como: ausência de definição do modelo administrativo a ser adotado e ausência de disciplinas na grade curricular com foco em administração em bibliotecas.

Todavia, não é propósito esgotar o assunto neste ensaio, apenas relacionar algumas características identificadas por Weber e utilizá-las nos procedimentos operacionais da biblioteca universitária, demonstrando dessa forma ser possível atingir a eficiência e a eficácia no atendimento ao usuário da referida unidade de informação.

CONCEITO DE BUROCRACIA

Especula-se que o termo burocracia foi utilizado pela primeira vez em 1740 na França e 100 anos depois o conceito foi sistematizado pelo sociólogo alemão Max Weber, que foi o primeiro teórico a estudar as organizações com enfoque estruturalista. Este autor defende que a racionalidade é a relação entre os meios e os recursos utilizados. Depois de muitas apreciações acadêmicas sobre o assunto para Weber não restou dúvida, a organização é a burocrática, pois vislumbra nesta prática a opção viável de atingir os objetivos a serem alcançados pelas organizações.
No Brasil é comum algumas expressões, ao se popularizarem, trazer uma conotação diferente e até distorcida do sentido etimológico da palavra. Burocracia é um bom exemplo visto que em muitas vezes ela é definida pelo cidadão comum de forma pejorativa sendo, freqüentemente, associada a lentidão nos trâmites dos processos e a produção de papéis em demasia por uma organização, dentre outras definições equivocadas do termo. Popularmente passou-se a denominar burocracia aos defeitos, as disfunções e não ao sistema em si. Provavelmente esta associação tenha sido feita pela sociedade influenciada por Robert Merton, que estudou as disfunções do sistema.

O termo burocracia é formado pela união de duas palavras “bureau” do idioma francês e “cracia” do grego que significam de acordo com o dicionário Michaellis (2001), escritório e administração, respectivamente. Burocracia, diferentemente das definições pejorativas que conhecemos, segundo Max Weber (1991) trata-se de uma forma efetiva de organização administrativa; ele afirma que burocracia são as normas, os regulamentos, os estatutos, os contratos, as comunicações formais, as divisões do trabalho, as hierarquias e rotinas.

O modelo burocrático de Weber traz características como: caráter legal das normas e regulamentos, formalidade nas comunicações, racionalidade e divisão do trabalho, impessoalidade nas relações, hierarquia de autoridade, rotinas e procedimentos estandardizados, competência técnica e meritocrática, administração separada da propriedade, profissionalização dos participantes, completa previsibilidade do funcionamento. Estas características, segundo este autor, trazem as seguintes vantagens: “racionalidade em relação ao alcance dos objetivos da organização; precisão nas definições do cargo e na operação, pelo conhecimento exato dos deveres; univocidade de interpretação garantida pela regulamentação especifica e escrita; uniformidade de rotinas e procedimentos o que favorece a padronização; redução de custos e erros, pelo fato de os procedimentos serem definidos por escrito; continuidade da organização, visto que há reposição dos profissionais afastados e os critérios de seleção e escolha de pessoal são baseados na capacidade e competência técnica; constância devida ter mesmas decisões em circunstâncias iguais; subordinação devido à hierarquia; confiabilidade, porque o processo é conduzido de acordo com regras conhecidas”.

A valorização destes pontos será mais intensa quando preconiza o modelo clássico de administração em que o organograma é linear, porém quando se pensa no modelo atomizado muitos dos valores enfatizados por Weber se perdem na busca da flexibilidade. Embora seja muito importante a contribuição da burocracia para maior eficiência das empresas, é fato também que Weber não analisou a burocracia sob o ponto de vista político, não considerou os aspectos subjetivos e informais da aceitação das normas e leis impostas, e não analisou a reação formal da organização se os subordinados não aceitarem.

Desta forma pode-se concluir que as variadas culturas exigem grau diferente de burocratização e mais ainda o gestor tem que ter a percepção ao implantar esse modelo administrativo na biblioteca para não incorrer nos erros provocados pelas disfunções da burocracia e ver sua organização ser considerada ineficiente.

Contudo, apesar das disfunções geradas pela burocracia, por não levar em conta a subjetividade do ser humano, é inegável seu valor para as organizações atuais. A Burocracia ainda é o modelo para ser a base administrativa das grandes e complexas organizações do nosso tempo, especificamente as Bibliotecas Universitárias, que devem estar aptas a demonstrar tanto para a própria instituição a qual é subordinada quanto para seus usuários, padrões de excelência em todos os seus processos.

DEFINIÇÃO DE UM MODELO ADMINISTRATIVO PARA A BIBLIOTECA UNIVERSITÁRIA

A necessidade da definição por parte do gestor sobre o modelo administrativo a ser seguido trará conseqüências em todos os processos da biblioteca, mas o mais importante é a transparência que essa definição provoca em toda a unidade de informação com reflexos na equipe e usuários. No modelo burocrático, por exemplo, a transparência reside no fato da formalidade dos processos, em que a equipe saberá de antemão todas as regras e normas a serem seguidas.

A comunicação informal nas organizações brasileiras tem haver segundo alguns teóricos com a cultura do país e especificamente com o “jeitinho brasileiro”, que de acordo com Roberto Damatta (1986), não é dado a padronizações e formalizações dos processos em suas atividades. O ponto negativo da informalidade reside no fato que “deixa brechas” para a livre interpretação dos funcionários sobre os processos a serem seguidos, o que impede maior controle sobre os mesmos, provocando perda de eficiência e qualidade no ambiente de trabalho.

No Brasil a burocracia na perspectiva Weberiana perde muito o seu rigor principalmente nos quesitos comunicação formal, transparência, impessoalidade no trato com a coisa pública devido a cultura do “jeitinho brasileiro
[i]”, tema estudado pelo antropólogo brasileiro Roberto Damatta (1986). O “jeitinho brasileiro”, presente na cultura do país, permeia as relações institucionais provocando alterações no modelo de gestão das empresas, e conseqüentemente na relação entre os funcionários e destes com os usuários. Neste modelo identificado por Damatta vigora o clientelismo e a troca-de-favores, ou seja, a administração se perde por não haver o caráter legal, formal e racional.
No caso específico da biblioteca universitária objeto de análise deste ensaio, é possível mesmo na condição de usuário, ou de futuro bibliotecário destacar que muitos problemas administrativos são frutos da ausência de normas, padrões, regulamentos, rotinas, enfim todas as características descritas por Weber como essenciais para a organização alcançar a eficiência.

Estabelecer padrões de qualidade em uma biblioteca universitária exige o cumprimento de diversos estágios administrativos, os quais podem ser alcançados através do uso do modelo burocrático weberiano. Como veremos no próximo tópico que todos os processos operacionais de uma biblioteca universitária se adaptam ao modelo burocrático e o que propiciaria atingir a excelência em termos de qualidade não só para a unidade em si, mas principalmente para os usuários.

A primeira vista causa estranheza a implantação de um modelo administrativo burocrático, dado ao que já foi comentado neste ensaio das formas pejorativas adquiridas pela sociedade a respeito da burocracia. No entanto sob a luz da racionalidade, é um modelo de gestão capaz de romper com os vícios da nossa cultura organizacional já corrompida, paternalista e que privilegia em muitas vezes tomadas de decisões motivadas por desejos, sem nenhum embasamento teórico, racional.

No Brasil, a literatura que trata sobre o tema especificamente em bibliotecas é escassa, mas ainda assim é possível encontrarmos pesquisas com enfoques em modelos administrativos, como no caso de Pereira (2000) que descreve a biblioteca com características da Burocracia de Weber:

“É necessário que se estude a biblioteca como uma organização formal cujos
objetivos são formulados com diferentes graus de especificidade e clareza, com
uma estrutura peculiar que se reflete na distribuição de tarefas, e sujeita à
influência do ambiente externo.” (PEREIRA 2000)

Com essa perspectiva, de acordo com o autor dentro das práticas formalizadas a biblioteca deverá implantar canais de comunicação padronizados através de formulários, o mesmo ocorrendo com todos os procedimentos, tarefas, e trâmites. A formalização dessas atividades possibilita também a busca da qualidade nos processos, pois a repetição não deixa de ser um treinamento o que proporciona a perfeição.

Em síntese, não se trata apenas de se definir o modelo administrativo para a BU, e sim qual deles será importante para se atingir a qualidade nos processos e principalmente satisfazer a equipe e usuários da biblioteca universitária. Dentro desta perspectiva seria interessante os bibliotecários começarem a se atentar para algumas características que o modelo burocrático proporciona para a implantação de parâmetros de qualidade.

CARACTERÍSTICAS DO MODELO BUROCRÁTICO EM UMA BIBLIOTECA

A biblioteca universitária é o espaço responsável por subsidiar uma instituição com todos os insumos informacionais dos quais seus usuários necessitam, portanto não pode mais ser compreendida como um apêndice da instituição. Em alguns casos, na iniciativa privada, percebe-se nitidamente que a razão de existir é atender em primeiro lugar o usuário, fato que não é infelizmente verificada em outras instituições. O funcionamento ou a existência está mais ligado a não “perder clientes” (alunos) e atender as exigências do MEC – Ministério da Educação, o que não é errado, só não deveria ter somente estas prioridades. É preciso entender que o atendimento ao usuário começa antes, com a definição de modelo administrativo a ser utilizado pela biblioteca. Ter clareza sobre o modelo é fundamental para traçar as políticas a serem seguidas por toda a equipe.

Em muitos casos, existem boas intenções por parte do gestor, aplicando diversos indicadores de qualidade conhecidos, mas falta definição de qual modelo administrativo será seguido pela biblioteca, normalmente a resposta para este questionamento é que adotam um modelo híbrido, ou seja, um pouco de cada teoria administrativa. Tal atitude a priori é interessante por aproveitar os pontos positivos de cada teoria, no entanto sob a ótica de Max Weber só deixam mais confusa o gerenciamento da biblioteca, o que pode proporcionar perda de comando, ameaça a hierarquia, conflitos entre o grupo e conseqüentemente queda do rendimento e qualidade do serviço prestado.

Ainda que a administração esteja nas grades curriculares, sendo abordada e discutida na Biblioteconomia, de acordo com Dziekaniak (2008), necessita ainda ser melhor explorada principalmente com pesquisas teóricas e práticas sobre administração em bibliotecas. Essa carência de estudos nesta área pode ser um dos sintomas, de falhas em gestão administrativas em BUs que comprometem a qualidade de seus processos.
Nesse sentido, quando ocorre uma carência de base teórica, como é o caso da administração em Biblioteconomia, oscilar entre um e outro modelo administrativo, parece não ser a melhor alternativa porque pode gerar atritos entre a chefia e a equipe. Normalmente nestes casos adota-se uma gestão participativa, mas sem parâmetros, sem indicadores para verificar a eficiência, eficácia e a qualidade nos processos. Em outros casos parte-se para o modelo autocrático onde só uma pessoa toma decisão sem ouvir todos os envolvidos. Os funcionários têm pouca relevância nas decisões e processos, o que resulta em péssimo atendimento aos usuários.

Cumpre destacar que a biblioteca é uma organização como qualquer outra em que é possível experimentar qualquer modelo administrativo, dentre eles o burocrático. Uma adaptação será necessária porque o seu negócio, missão, e objetivos serão diferentes de uma empresa comercial.

A biblioteca universitária tem como objetivo prover a comunidade acadêmica das informações demandadas, de resto é igual a qualquer organização, necessita de um prédio (espaço físico da biblioteca), composta por funcionários (equipe da biblioteca), tem clientes (usuários) e possui um produto (acervo e serviços). Partindo deste pressuposto a implantação da burocracia, tal como estudada por Weber proporcionaria ganhos de qualidade para a unidade de informação em questão.

Max Weber ao desenvolver sua teoria a cerca do modelo burocrático, deixa em aberto a sua aplicação á todos os segmentos da sociedade, o que permite organizações como as bibliotecas universitárias colocar em prática suas teorias como veremos a seguir:


§ Caráter legal das normas e regulamentos: A organização burocrática é baseada em uma legislação própria, que engloba todas as áreas da biblioteca universitária e prevê todas as ocorrências. O caráter legal está relacionado ao poder conferido às pessoas investidas da autoridade de impor a disciplina no caso o bibliotecário gestor;

§ Caráter formal das comunicações: Presenciamos em muitas organizações brasileiras, o caráter informal da comunicação, na biblioteca não é diferente em alguns casos. Ainda existe uma cultura organizacional que resiste a formalização das comunicações. As regras, decisões e ações administrativas são formuladas e registradas por escrito, com o intuito de proporcionar comprovação e documentação adequada e interpretação unívoca das comunicações. O registro é de suma importância como provas de ações realizadas por qualquer membro da equipe da biblioteca;

§ Caráter racional e divisão do trabalho: Para se alcançar um melhor resultado na biblioteca há que se ter uma divisão sistemática do trabalho e do poder, estabelecendo as atribuições de cada participante, que são conhecidas e respeitadas por todos, de modo que a estrutura existente não seja prejudicada. Cada membro sabe exatamente qual sua obrigação e a responsabilidade perante a tarefa a ele atribuída, dessa forma fica mais fácil do gestor cobrar a quem de direito executou aquela tarefa. Em uma unidade de informação na qual todos sabem exatamente o que cada um deverá executar, os fluxos de tarefas são melhores visualizados, facilitando possíveis correções;

§ Impessoalidade nas relações: A administração de uma biblioteca deverá ser realizada sem considerar as pessoas como pessoas, mas como ocupantes de cargos e funções, justificada pelo fato de que as pessoas vêm e vão, mas os cargos e funções permanecem. A impessoalidade está na ação, nas tarefas, faz parte das obrigações a serem executadas pelo funcionário. A impessoalidade nas relações não permite que o funcionário “faça marketing pessoal” dentro da biblioteca, uma vez que o que deve se sobressair são suas ações. Caso ocorra esse vício na biblioteca poderá comprometer todo o trabalho de uma equipe, pois poderá haver vaidades, ciúmes etc;

§ Hierarquia de autoridade: Que o trabalho em equipe é necessário e importante para o resultado final é inegável, mas há que se ter delimitado o poder hierárquico de toda a equipe, de forma que os comandados respeitem e sigam as determinações de quem está acima no cargo. Os cargos são estabelecidos de acordo com o princípio da hierarquia, segundo o qual cada cargo inferior deve estar sob o controle e supervisão de posto superior. Desta forma em uma biblioteca universitária, o gestor é o responsável máximo pela equipe. Organicamente essa distribuição de cargos pode parecer autoritária, no entanto segundo Weber ,é essencial que todos saibam das posições hierárquicas que cada um ocupa na equipe;

§ Rotinas e procedimentos estandardizados: Regras e normas técnicas, rotinas e procedimentos, regulam a conduta do funcionário e a forma como as atividades devem ser executadas. Essa padronização está relacionada aos objetivos da organização, e facilita a avaliação do desempenho como no caso de aplicação do PDCA (Planejamento-execução-verificação e ação) na biblioteca dentre outros indicadores de qualidade. A padronização proporcionará um aumento da qualidade, pois independente de quem realize a tarefa o padrão é o mesmo;

§ Competência técnica e meritocracia: A escolha das pessoas é baseada no mérito e na competência técnica e não em preferências pessoais. Dentro desta prerrogativa há que se privilegiar a contratação da equipe da biblioteca baseado no perfil apropriado a função. Não adianta contratar uma pessoa para o setor de referência se ele tem dificuldade de lidar com o público e nem tem conhecimentos gerais para indicar ou recomendar uma obra. O mesmo é valido para os outros setores da biblioteca, que deverá ser preenchido por mérito, por competência técnica e perfil adequado para a função;

§ Especialização da administração que é separada da propriedade: o administrador da organização burocrática não é o proprietário do negócio, mas um profissional especializado na sua administração. Como o preenchimento do cargo é através da meritocracia e não por indicações, na biblioteca somente um bibliotecário estaria apto a ocupar esta função.

§ Profissionalização dos participantes: Na burocracia (organização burocrática), cada participante (funcionário) é um profissional, pois é um especialista, assalariado, ocupante de cargo, nomeado por superior hierárquico, seu mandato é por tempo indeterminado, segue carreira dentro da organização, não possui propriedade dos meios de produção e administração, é fiel ao cargo e identifica-se com os objetivos da empresa. O especialista é importante porque é sabedor de que naquela função é o especialista, e goza de prestígios devido ao seu status de conhecimento profundo na tarefa a qual está designado a desempenhar. Como exemplo, na Biblioteca podemos citar o bibliotecário de referência ou do processamento técnico que se destaca por ocupar o cargo por merecimento, por possuir a competência técnica para aquela atividade.

§ Completa previsibilidade do funcionamento: Tudo na burocracia é estabelecido no sentido de prever antecipadamente todas as ocorrências e rotinizar sua execução, para que a eficiência máxima do sistema seja plenamente alcançada. As reações e o comportamento humano são previsíveis, uma vez que tudo estará sob o controle de normas racionais e legais, escritas e exaustivas. O bibliotecário que atua em uma organização burocrática, já sabe de antemão quais são os processos, procedimentos que deverá executar por que está tudo escrito, previsto. Este princípio é importante porque, funciona como uma instrução técnica de trabalho, o funcionário sabe o passo-a passo de suas atividades, além de padronizar as ações de toda equipe de forma que seja possível implantar indicadores de qualidade.


Conforme vimos acima todos os pontos da teoria burocrática é sim, passível se ser aplicada a realidade das bibliotecas universitárias, e principalmente, por ser este modelo facilitador da implantação de parâmetros de qualidade nas mesmas.

De acordo com Lessa (2000), essas características proporcionaram a burocracia um papel fundamental em nossa sociedade, destacando-se como um recurso essencial em todas as administrações. E ao contrário do que é colocado pelo senso comum, contribuiu para elevar ao máximo a eficiência organizacional e individual.

Todavia, há que se ter clareza de que a burocracia tradicional teorizada por Weber, não se adequaria em muitas bibliotecas, dado as mudanças que ocorreram no mundo devido ás conseqüências da nova globalização. Alguns autores como Lessa (2000) á denomina como neoburocracia, devida a descentralização de poderes e maior participação de toda a equipe, sendo então uma burocracia mais flexível. Mas a essência da teoria continua a mesma de quando foi estudada por Weber.

Por fim, um modelo de gestão administrativo para a BU assentado sob as bases da Burocracia poderá contribuir substancialmente com a implantação de ferramentas para a qualidade total, mesmo nos dias de hoje, que exige maior flexibilidade da equipe da biblioteca.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por fim, a partir da pesquisa bibliográfica e desta revisão de literatura constata-se a pouca importância dada até agora sobre a implantação de modelos administrativos em Bibliotecas universitárias, dado a escassez de pesquisas sobre o tema. A deficiência na formação de bibliotecários, seja na ausência de disciplinas na grade curricular de modelos administrativos de bibliotecas ou da não atualização do bibliotecário via educação continuada, vai na contramão da empresa moderna. Parece que estamos vivendo um paradoxo, ou seja, estamos atuando num cenário extremamente competitivo e, no entanto com gestão arcaica, paralisada no tempo, com foco no sistema ao invés do cliente (usuário), abrindo mão de lucros e oferecendo produtos e serviços sem qualidade. Sobre os reflexos desta constatação de defasagem administrativa nos cursos de biblioteconomia Alentejo (2008) nos alerta:


“As ultrapassadas premissas de gestão de bibliotecas que ora vigem influenciam as unidades de informação especializadas, que não tendo outro parâmetro no ensino e na prática, mantêm-se sobreviventes sob os moldes de inadequados e antigos paradigmas ou então absorvem outros originados pela atuação da organização principal.”



Diante deste quadro, cabe ao bibliotecário além da competência que lhe é peculiar na sua profissão, começar a desenvolver conhecimentos básicos de administração em biblioteca, se ainda as grades curriculares não oferecem aos alunos da graduação este conteúdo, que se busque a atualização na educação continuada.

Neste tema temos muito a percorrer ainda, no entanto, com este ensaio espera-se contribuir para o início de uma discussão ainda incipiente no Brasil a cerca do modelo administrativo burocrático em bibliotecas universitárias, com o intuito de facilitar ou aperfeiçoar a qualidade nestas unidades de informação.

REFERÊNCIAS :

ALENTEJO, Eduardo Silva. Mudanças de paradigma na administração de bibliotecas.
Disponível em: <
http://www.artigos.com/components/com_mtree/attachment.php?link_id=5660&cf_id=24> acesso em: 02 nov. 2009.

CENTRO UNIVERSITÁRIO DE BELO HORIZONTE. Manual para elaboração e Normalização de trabalhos acadêmicos conforme normas da ABNT. Belo Horizonte, 2008. Disponível em: <
http://74.125.93.132/search?q=cache:5kb0uupHQpcJ:www.unibh.br/imgMarketing/pdf/Manual-de-Normalizacao-2008_2.ed.pdf+manual+abnt%2Buni+bh&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk> acesso em: 06 nov. 2009.

CHIAVENATO, Idalberto. Introdução Geral a teoria da administração. São Paulo: Makron Books, 1993.

______________. Administração: Teoria, processo e prática. São Paulo:MCGraw-Hill,1987, p.12-15.

DAMATTA, Roberto. O que faz o Brasil, Brasil?. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

LESSA, Carlos Alberto. A qualidade total trazendo um novo enfoque para a burocracia. Revista de Administração, São Paulo, v.35, n.3,p.71-80, jul./set.2000. Disponível em: <
http://www.rausp.usp.br/download.asp?file=3503071.pdf.> acesso em 09 out.2009.

MICHAELLIS. Dicionário escolar Inglês. São Paulo: Melhoramentos,2001.

WEBER, Max. Economia e Sociedade. Fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: Ed. UnB,1991.

PEREIRA, Joana Dárc da Silva. Biblioteca universitária: uma abordagem organizacional. Disponível em: <
http://libdigi.unicamp.br/document/?code=1116 > acesso em 10 out. 2009.

VASCONCELOS DZIEKANIAK, Cibele. Sistema de gestão para biblioteca universitária (SGBU): teoria e aplicação. Biblios, Lima, n.31, p.01-16, abr./jun.2008. Disponível em: <
http://www.revistabiblios.com/ojs/index.php/biblios/article/view/34/47> acesso em 27 out.2009.












sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O surgimento dos Arquivos e as práticas da Arquivologia

O surgimento dos arquivos remontam a era do aparecimento da escrita, e conseqüentemente a produção de documentos, e tem como objetivo guardar e preservar os documentos e em alguns casos proporcionar o acesso ao cidadão. Na literatura encontramos várias definições para arquivo, no entanto considero o conceito utilizado pelo arquivista italiano Eugênio Casanova (1867-1951), o que melhor define a expressão: “...a acumulação ordenada de documentos criados por uma instituição ou pessoa no curso de sua atividade e preservados para a consecução de seus objetivos políticos, legais e culturais, e pela referida instituição ou pessoa.”

A gestão de documentos ao longo da história, sempre foi praticada, mas não com a intensidade verificada a partir Século XX em virtude do enorme volume de documentos produzidos, seja na iniciativa privada ou pública. Na perspectiva da Arquivologia, a gestão de documentos é um conjunto de medidas e rotinas visando á racionalização e eficiência na criação e tramitação, classificação, uso primário e avaliação de arquivos. Mas para preservar o documento e a recuperação dos documentos, bem como a aquisição dos mesmos pelo arquivo foi necessário criar uma disciplina que fornecesse um arcabouço teórico para a área, surgindo então a Arquivologia em 1821 na França.

A Arquivologia é a disciplina que tem por objetivo o conhecimento dos arquivos e dos princípios e técnicas a serem aplicados na sua constituição, organização, desenvolvimento e utilização. É também responsável por municiar os arquivistas e sua equipe do tratamento técnico dos registros documentais, ou seja dos documentos que compõem o acervo vindos de recolhimento, transferência e doação. Uma etapa anterior a entrada dos documentos deverá ser observada tanto pelo órgão produtor como pelo arquivo receptor, estamos falando do ciclo de vida dos documentos que é dividida em três idades:

Arquivos correntes: é o período durante o qual os documentos ativos são indispensáveis á manutenção das atividades cotidianas da administração. Chamados a ser utilizados freqüentemente, devem permanecer o mais perto possível do utilizador ou, se estiverem em memória de computador, ser fácil e rapidamente acessíveis.
Arquivos intermediários: é o período durante o qual os documentos semi-ativos, seja qual for o suporte utilizado, devem ser conservados por razões administrativas, legais ou financeiras, mas não tem de ser utilizados para assegurar as atividades cotidianas de uma administração.
Arquivos permanentes: é o período a partir do qual os documentos inativos deixam de ter valor previsível para a organização que os produziu. Não tendo já que responder aos objetivos da sua criação, os documentos são eliminados ou conservados como arquivos definitivos se possuírem o valor de testemunho.

Além dos tipos de arquivos definido pela teoria das três idades, ao documento lhe é conferido a qualidade de valores primário ou secundário. O valor primário é definido com base nas suas utilizações imediatas e administrativas que lhe foram conferidas por seus criadores, nas razões para as quais o documento foi criado. Já no valor secundário do documento é definido na não utilização imediata ou científica do documento. Esta qualidade radica essencialmente no testemunho privilegiado e objetivo que o documento fornece.

Os documentos arquivisticos, independente da natureza do arquivo (público ou privado) e da forma de entrada (recolhimento, transferência ou doação) deverá obedecer a um dos princípios da Arquivologia á saber:

Princípio da proveniência: é o “Princípio segundo o qual os arquivos originários de uma instituição ou de uma pessoa devem manter sua individualidade, não sendo misturados aos de origem diversa”;
Princípio da manutenção: O princípio de manutenção da ordem original, DURANTI (1994) o considera como um princípio de proveniência sob o ponto de vista interno do arquivo;
O outro princípio que fundamenta as ações de classificação de informações arquivísticas é o princípio da ordem original. Para Rousseau e Couture (1998, p.83), essa vinculação é representada, inclusive, na denominação adotada para os princípios.

DURANTI (1994), nos adverte sobre o status que o documento possui, ou seja, suas características. O documento de arquivo não é um papel solto guardado no acervo por que assim determina a legislação. Ele é carregado de atributos importantes que o arquivista o distingue dos demais.

A primeira característica é a imparcialidade. Parte-se do pressuposto que os registros são verdadeiros.As razões e circunstâncias de sua criação(rotinas processuais) asseguram que não foram feitos na intenção ou para a informação na posteridade.

A segunda característica é a autenticidade. São autênticos por que foram criados tendo em mente a necessidade de agir através deles.

A terceira característica é definida pela naturalidade. A naturalidade deve-se a maneira com que o documento se acumula no curso das transações. Eles não são coletados artificialmente, e sim naturalmente nos escritórios em função dos objetivos práticos da administração.

A quarta característica é o inter-relacionamento. Esta característica é devida ao fato de que o documento estabelece inter-relações no curso das transações e necessidades.

A quinta característica é a unicidade. Conferida por que cada item documental assume um lugar único na estrutura do grupo ao qual pertence.

Em síntese, estas são as principais práticas da Arquivologia, conhecimentos teóricos e práticos voltados para a organização e gestão dos Arquivos, tais como: organização, gestão dos documentos, recuperação da informação, conservação e preservação de documentos.



Referências:

DURANTI, Luciana. Registros documentais contemporâneos como provas de ação. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v.7,n.13,1994.p.49-64. (disponível em:http://www.cpdoc.fgv.br/comum/htm) acesso em 04/10/2009

JARDIM, José Maria, FONSECA, Maria Odila. Arquivos. In:CAMPELLO,Bernadete Santos, CALDEIRA, Paulo da Terra, MACEDO, Vera Amália Amarante (orgs.) Formas e expressões do conhecimento: introdução as fontes de informação. Belo Horizonte: Escola de Biblioteconomia da UFMG,1998. p.p.369-389.

ROSSEAU, Jeans-Yves,COUTURE, Carol. Os fundamentos da disciplina arquivística. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1998.

RODRIGUES,A.M.L. A teoria dos arquivos e a gestão dos documentos. Perspect. Ciênc. Inf., Belo Horizonte, v.11,n.1,p.102-117, jan./abr.2006.
SCHELLENBERG, Theodore Roosevelt. Arquivos modernos: principios e técnicas. 6ª Ed. Rio de Janeiro: Undação Getúlio Vargas, 2006.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Arquivo Público do Paraná:Lugar de memória e identidade do povo paranaense

Resumo:

O presente artigo pretende discutir algumas questões sobre o Arquivo Público do estado do Paraná, sobretudo se está em conformidade com as exigências da lei federal nº 8.159/1991. Está presente também neste texto, uma análise do arquivo como espaço de preservação, difusão da cultura do povo paranaense, e ainda, se esta unidade de informação pode ser considerada “lugar de memória” .

O arquivo Público do Estado do Paraná e a legislação que dispõe sobre o acesso aos documentos

Os arquivos públicos até a década de 90 do século XX, eram instituições que atendiam trâmites burocráticos no que tange ao recolhimento e a guarda de documentos oriundos da produção cotidiana nas diversas secretárias e repartições públicas. As visitações por parte do público em geral eram restritas, sobretudo durante o regime militar que negavam aos cidadãos acesso aos documentos sob a guarda dos arquivos públicos.
Um sopro de democratização ao acesso aos documentos de arquivo por parte dos cidadãos, começou principalmente apartir de 1990, com promulgações de leis e, maior conscientização dos cidadãos, que permitiram a qualquer pessoa o acesso a documentos, seja para pesquisa acadêmica ou para fins probatórios. A própria lei Nº 8.159, DE 08 DE JANEIRO DE 1991 no capítulo V dispõe sobre o Acesso e do Sigilo dos Documentos Públicos quando diz no art. 22: “ É assegurado o direito de acesso pleno aos documentos públicos.” Mais recentemente é promulgada outra lei com os pareceres idênticos a mencionada aima a lei nº 46/2007 de 24 de agosto, no artigo 5º Direito de acesso dispõe:

“todos, sem necessidade de mencionar qualquer interesse, tem direito de acesso
aos documentos administrativos, o qual compreende o direito de consulta, de
reprodução e informação sobre a sua existência e conteúdo.”

O Arquivo Público do Estado do Paraná está em conformidade com a lei 8.159/1991 no que concerne a sua estrutura organizacional enquanto instituição responsável pelo recebimento, guarda, preservação e disponibilização dos documentos aos cidadãos do Paraná.
Na literatura sobre o tema, existe uma certa discussão se realmente os documentos que estão sob a guarda do Arquivo público é de fato a memória de um povo. Os fragmentos culturais ali conservados sob a ótica fria dos preceitos do arquivista, espelham a produção cultural de um povo ou apenas da classe dominante, que naquele momento estava no poder e produziu os documentos? São dúvidas pertinentes que lançam um olhar crítico não só sobre o Arquivo Público do Estado do Paraná, mas de todas as Instituições deste gênero no Brasil.
Em seu artigo intitulado a invenção da memória nos Arquivos públicos, JARDIM (1995) vai mais além, questiona as formas de recolhimento do acervo:
“A lógica da constituição desses acervos de valor “permanente” resulta em geral
não de uma política de recolhimento por parte dos arquivos, mas de ações
isoladas, como a extinção de órgãos públicos, falta de espaço físico em
determinadas repartições, etc. “

Neste sentido, seria interessante reavaliarmos o caráter terminológico que os arquivos públicos assumiram como “o lugar de preservação da cultura de um povo” ou “lugar de preservação da memória”, do qual não concorda alguns teóricos, e aí não é exceção a regra o Arquivo do Estado do Paraná.
Para SANTOS (2003 apud HALBWACHS,1938), que considera que a memória é uma construção coletiva e nÃo individual, porque é construída cotidianamente em locais fora das esferas administrativas do aparelho estatal e por sujeitos comuns que não fazem parte da “história oficial.”
Portanto naquilo que dispõe a legislação em vigor, especialmente o que trata a lei 8.159, não temos dúvida de que o Arquivo Público Paranaense cumpre o que determina a lei. O que se pretendeu aqui neste espaço foi levantar algumas questões, por exemplo, de como o acervo foi constituído, bem como o tratamento técnico que o mesmo foi submetido, especificamente no que concerne aos critérios. No entanto não é intenção deste artigo aprofundar no tema.

Arquivo Público como lugar de preservação e difusão da história e cultura local

O Arquivo Público do Estado do Paraná contribui para a preservação e difusão de aspectos ligados a cultura e principalmente da identidade local, visto que foi um dos estados que mais receberam imigrantes para trabalhar em suas lavouras durante o século XVIII e até início do século XX.
Os fundos que constituem o acervo constam de registro cadastral de 18 países, que abasteceram o estado do Paraná com mão-de-obra em diversos segmentos da economia, com predominância para a agricultura que era a principal atividade da época. Um estado que se constituiu culturalmente por Alemães, italianos, poloneses, austríacos, portugueses etc., estes com imensa vocação para a lavoura.
O fator que motivou a imigração não vem a ser o ponto central da análise, o fato é que ao aportar com suas famílias no estado, trouxe também seus modos de vida oriundos das suas regiões, o que implica em transformações de comportamentos culturais dos nativos do Paraná. Com os imigrantes vieram também suas tradições, sua herança cultural. A influência na língua, com o português arrastado interrogativo, a culinária, as danças típicas destas famílias ao fim das colheitas.
A guarda destes documentos especificamente deste fundo (cadastro de registro de Imigrantes), que contém nome completo, data de desembarque, nacionalidade, o nº do livro e a ordem, dentre outras informações, por si só, já demonstra preocupação do Arquivo com a preservação da cultura e identidade destes povos, que ajudaram a constituir o estado do Paraná.
A preservação destes documentos dá a possibilidade a pesquisadores e demais interessados a oportunidade de ter acesso a um acervo até então intocado por motivos já expostos aqui, caso da censura durante regime militar e conseqüentemente do pouco hábito que o brasileiro possui de visitar arquivos, museus etc. Talvez até reflexos dos anos de cerceamento da liberdade de expressão.
A partir do momento em que os pesquisadores começam a ter acesso a estes documentos cresce também o numero de publicações que visam resgatar vários temas importantes que repousam nas prateleiras dos arquivos durante séculos.
Nos finais dos anos 90 do século passado tivemos um “boom” crescente de digitalização dos acervos dos arquivos públicos, fato que pode ser constatado verificando a quantidade de editais publicados, liberando recursos para este propósito. Entidades, como o ministério da cultura, os fundos de amparo a pesquisa e outras entidades governamentais, na onda das tecnologias e da preocupação da degradação dos acervos, começaram a digitalizar os acervos em todo país. É uma ação que está preocupada com as evoluções tecnológicas, com a constante mudança de suporte material dos documentos, mas cabe ressaltar que essas transformações têm possibilitado e garantido o acesso a informação aos usuários. Isso é fato, podemos discordar da maneira como está sendo conduzida a constituição do acervo, como Critica JARDIM, quando diz que a avaliação tende a privilegiar a memória como uma construção técnica do arquivista, dado a sua capacidade de emitir valores, do que deve ser selecionado como patrimônio ou descartado.
Dentro desta perspectiva o Arquivo Público do Estado do Paraná não é diferente do que estamos acostumados a ver no Brasil, e no que exige a lei sobre recolhimento dos documentos produzidos cotidianamente nas repartições públicas do estado. Os documentos históricos constituem cerca de 15% da documentação, dos quais quase sempre documentos que exprimiam a vontade do poder constituído da época, á versão oficial, dos vencedores,contra a ausência de vestígios da história de sujeitos comuns, normais, longe dos registros formais. Ainda assim, um número bem pequeno para rememorar a história cultural e identidade de um povo.
De qualquer forma tal acervo, constitui-se em importante fonte de conhecimento sobre o desenvolvimento social, econômico, político e administrativo do Estado do Paraná.


Arquivo público como lugar de memória

Existe uma extensa literatura que nos encoraja a discutir o Arquivo público como lugar de memória, sobretudo a partir de condições já debatidas neste texto, sobre a sua subjetividade do que deve ou não ser preservado. Antes de adentrarmos no mérito se o Arquivo Público do Estado do Paraná é ou não lugar de memória, faz se necessário conceituar o que é memória, para então nos aprofundarmos no tema. Segundo o dicionário Aurélio,

“memória significa faculdade de reter idéias, impressões e conhecimentos
adquiridos. Lembranças, reminiscências, o ato de reter idéias”.

Com esta conceituação, os documentos presentes no Arquivo Público do Estado do Paraná, o constitui como lugar de memória, porque remete a lembranças da cultura de um povo, no caso os imigrantes, que desembarcaram no Paraná com uma bagagem histórica cultural herdada de seus antepassados, e que se fazia presente nos diversos documentos do acervo. Mais precisamente a memória coletiva, naquilo que SANTOS (2003) cita do sociólogo Halbwachs de que a memória cultural é uma construção coletiva. É o conjunto dos elementos culturais, sociais e históricos que constituem as referências coletivas de um povo.

Sobre a construção social da memória, parece ser consenso entre os teóricos da área humana de que é tecida de forma coletiva, afinal o ser humano é um ser social, e como tal se realiza através das interações com o outro. Entretanto a memória social não é natural, mas construída como já vimos no tópico acima, muito de sua construção ocorre ao sabor da interpretação do arquivista, das técnicas da arquivologia. Dentro desta discussão polêmica, observa-se que aquilo que chamamos de uma memória social nada mais é do que resultado de um processo histórico de disputa de interpretações, como resultado do processo, ocorre a predominância de uma de tais interpretações e um esquecimento das demais. Naturaliza-se, assim, um sentido “comum” à sociedade, do arquivo como lugar de memória.

A discussão é incipiente, no que tange a crítica se realmente o Arquivo Público do Estado do Paraná ou de qualquer outro estado se constitui como lugar de preservação da memória. Podemos indagar, sobre qual memória estamos falando? A memória que é construída pelo sujeito social a margem do aparato oficial do estado de “ preservação” da memória coletiva, no caso os arquivos e museus, ou a memória dos documentos selecionada pelo subjetivismo do arquivista, com critérios que historiadores, psicólogos e sociólogos discutem se são os mais adequados.

Portanto, o tema é instigante para um debate, e salutar a partir do momento em que lançam bases para uma discussão mais aprofundada sobre a constituição do acervo de nossos arquivos públicos. É necessário destacar que o Arquivo Público do Estado do Paraná se constitui como lugar de memória, pois em seu acervo encontram-se presente materiais de memória sob as duas forma principais: os monumentos que refletem a herança do passado e os documentos, escolha do historiador, o que não deixa de ser fragmentos da memória cultural dos imigrantes.


Considerações finais

O acesso a informação, portanto aos documentos, sob a guarda dos Arquivos públicos é respaldada pela legislação federal, no entanto independentemente da unidade federal onde se está localizado o Arquivo, na prática as dificuldades tem demonstrado enormes para o cidadão apesar de garantido por lei.

A legislação federal e as diversas leis estaduais estudadas são suficientes para garantir ao cidadão o acesso aos arquivos. No entanto, são inúmeras as dificuldades encontradas pelas instituições arquivísticas para manter seus acervos disponíveis para consulta e para atender ao cidadão que procura os Arquivos, seja com o objetivo de realizar pesquisa científica ou de buscar a comprovação de direitos.

No caso de pesquisa acadêmica, a dificuldade de acesso aos documentos pelo pesquisador, poderá influenciar na difusão da história e cultura, uma vez que não satisfeita a necessidade de informação não há como reproduzir o legado cultural que repousa no acervo.

Ainda assim, diante dos fundos que compõe o acervo do Arquivo Público do Estado do Paraná, principalmente aqueles 15% que são históricos.

Não podemos deixar de reconhecer que o APEP, se constitui como lugar de memória, principalmente considerando o fundo Registro de Cadastro de Imigrantes, abre espaço para rememorar a cultura de seus países de origem.
Referência:

JARDIM, José Maria. A invenção da memória nos arquivos públicos. Ciência da Informação. Brasília, V.25, N.2, 1995.

SANTOS, Myrian Sepulveda dos. memória coletiva & teoria social. São Paulo: Annablume, 2003.

Dicionário on line de português disponível em:
http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Minidicionário da língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1988.

FERRAREZI, Ludmila. arquivo, documento e memória na concepção discursiva.Enc. Bibli: R. Eletr. Bibliotecon. Ci. Inf., Florianópolis, n. 24, p. 152-171, 2º sem.2007.

BRASIL. Lei 8.159 de 08 de janeiro de 1991. Dispõe sobre a política nacional de arquivos públicos e privados dá outras providências.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O Papel do bibliotecário no planejamento estratégico da empresa

A atuação do bibliotecário e as evoluções das tecnologias da Informação.

Neste artigo serão ressaltadas algumas transformações que ocorreram no ambiente de trabalho do bibliotecário ao longo da história, dentre elas os avanços da tecnologia, que culminaram em mudanças significativas em todas as áreas do conhecimento. Estas mudanças alteraram não só o “modo de fazer as coisas”, mas também a estrutura e funcionamento da sociedade e de suas organizações, redefinindo assim o modo de atuação dos profissionais no mercado de trabalho. Conseqüentemente analisaremos a atuação do bibliotecário como profissional capacitado a romper paradigmas conservadores de sua área e atuar na esfera empresarial como tomador de decisão.
A figura milenar do bibliotecário na sociedade vem sofrendo transformações que são inerentes aos avanços do conhecimento e da tecnologia. Esta profissão conviveu com várias mudanças ao longo da história, principalmente o trabalho com manuseio de suportes mais variados, como: pergaminho, tablete de argila, papiro dentre outros. Com a Revolução da microeletrônica, ou revolução digital em meados do século XX, os bibliotecários passaram a utilizar estas inovações tecnológicas no tratamento da informação em suas atividades.
Com a revolução tecnológica concentrada nas tecnologias da informação começou a remodelar a base material da sociedade em ritmo acelerado. É neste ambiente que o bibliotecário terá de atuar, não só em bibliotecas, mas em outras unidades de informação, principalmente em empresas, lidando agora, mais do que em qualquer tempo, com o maior bem de capital presente numa empresa que é a informação.
Talvez a maior dificuldade de atuação do bibliotecário dentro desta nova perspectiva não reside no sentido da mudança de suporte da informação, que está por força das evoluções tecnológicas migrando do milenar papel para a forma eletrônica (on-line), e sim na maior dificuldade em mudar de ambiente de trabalho, atuando também em financeiras, bancos, escritórios de advocacias, e empresas de vários ramos; como nos mostra um estudo realizado por BAPTISTA (2000) nas regiões sul e sudeste.
Nessa transição observa-se, na literatura disponível a cerca do tema, uma enorme dificuldade do bibliotecário em se posicionar no mercado de trabalho além das unidades de informação já tradicionais como as bibliotecas. Pelo menos é isso que se percebe da atuação do bibliotecário no Brasil, muitos ainda não descobriram este lado interessante da sua área que é trabalhar em empresas, se o faz aqui no Brasil os exemplos são tímidos ainda. Os seus colegas do estrangeiro, da Europa como a Inglaterra, Alemanha e França e na América do Norte, os Estados Unidos, já estão disponibilizando os seus conhecimentos a serviço das empresas de vários ramos.

As habilidades do bibliotecário a serviço da empresa

Com o crescimento da tecnologia e conseqüentemente das informações disponíveis nas empresas, começaram a surgir dificuldades no sentido de controlar estes estoques informacionais. Com o mercado extremamente competitivo para as empresas não basta ter a informação, é preciso considerar que o sucesso de qualquer organização não depende somente das informações disponíveis, é necessário que em seus quadros tenham um profissional qualificado da área, no caso um bibliotecário, que possa agregar valor a essa informação.
O bibliotecário mais do qualquer outro profissional da informação domina as técnicas de sua área no que tange ao tratamento da informação e ele possui os conhecimentos necessários para elaborar e fazer parte do planejamento estratégico de uma empresa. Este profissional está habilitado a fazer o tratamento da informação, coletando, analisando, organizando e implementando ações que serão utilizadas para a melhoria contínua das atividades da empresa. Como ressalta Davenport (1998), o único profissional da informação que domina as técnicas de organização e classificação é o bibliotecário, além de trabalhar com fontes de informação interna sabe lidar também com as externas. Estas habilidades conferem ao bibliotecário um diferencial competitivo nas organizações.
Não existe um perfil ideal, tipificado, para este bibliotecário moderno atingir posição de destaque no organograma da empresa com poder de decisões. Aliado a seus conhecimentos da biblioteconomia há que se ter sensibilidade, talento e entender dos processos administrativos, orçamentários e tecnológicos da empresa.
Portanto, frente às diversidades do mercado de trabalho e às poucas ofertas de vagas em bibliotecas, as oportunidades de trabalho para os bibliotecários aumentam devido á sua formação diversificada, o que os possibilitam a executar vários papéis nas empresas dentre eles o planejamento estratégico.


Referências:

CASTELLS, M. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 2005. v.1

DAVENPORT, T. D.; PRUSAK, L. Conhecimento empresarial: como as organizações gerenciam o seu capital intelectual. Rio de Janeiro: Campus, 1998.

BAPTISTA, S.G. Profissional da informação, autônomo ou empresário, novas perspectivas de mercado de trabalho. Perspectivas em ciência da informação, V.5, n.1, p.91-98, jan./jun.2000.